Macchiato – o café com toque chique da Etiópia

Diário: Sudão, what else?

Fizemos a grosseria de deixar o visto do Sudão (norte) caducar. Pagámos o erro, voltámos para Adis Abeba para fazer tudo de novo.

Macchiato – o café com toque chique da Etiópia

Macchiato – o café com toque chique da Etiópia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tivemos mais uma vez com um enorme apoio da nossa diplomacia que ao longo desta viagem nos tem deixado com o queixo no chão com o seu profissionalismo e entusiasmo, conseguimos resolver o mais preocupante que era eu ter páginas suficientes no passaporte e poder prosseguir viagem por terra com o meu pai. Entro no Egipto com o passaporte a rebentar pelas costuras, onde farei outro temporário. Dentro dos nossos mini melodramas temos tido sorte: só falta o fácil visto de Sudão para a última página limpinha…

…mas entretanto o George Clooney vai ao Sudão como activista e aparece em todos os noticiários. Acusa o Governo Sudanês de matar civis inocentes, fala com ao Senado, depois com o Obama, é preso e solta mais paixões, agora humanitárias. A notícia entra na crista da onda e as cadeias de televisão enviam os seus correspondentes na esteira do actor. Neste três dias, coincidência ou não, mudaram os procedimentos para os vistos na embaixada, onde nos dizem:

– Têm que arranjar uma carta convite de alguém do Sudão que a entregue no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Kartoum para nos enviar. É fácil!

– Desculpe mas não é fácil. Nós só queremos atravessar o país, não vamos visitar amigos, não temos conhecidos sudaneses nem embaixada por lá.

– Tragam a carta convite que lhes damos o visto em 24 horas. É fácil!

Fácil uma ova. A burocracia africana é um pesadelo. Esqueçam as catanas, as lianas e as hienas. África 2012 desbrava-se com uma bic. Este continente não gosta de normas e muito menos de homogeneidades ao estilo Europeu que se cobre de directivas como chantilly fresco em bolo velho . Aqui cada país tem as suas regras, e muda-as como as camisas.

Bebemos uns litros de cerveja para afogar esta maldita expressão do pensamento – “É fácil!”. Hoje é dia 22 de Março, e há dois dias chegávamos ao Cairo. Estamos ainda em Adis Ababa à espera de um email de um desconhecido, amigo do dono do nosso hostal, para nos desbloquear os vistos. Já passaram 15 dias desde o nosso neurótico erro. Vamos atravessar o Sudão sem o visitar pois perdemos todo o tempo. O Sudão que todos os “overlanders” dizem ter o povo mais caloroso e honesto de África.

Viajamos para conhecer gente normal como nós. Não gostamos de política e raramente de políticos. Mas estamos presos a ela mais que nunca e subo assim para o meu palanque de activista:

Qualquer pessoa com o juízo no sítio não deseja a morte de inocentes no mundo. Mas se o George Cloney é um actor bravo em ir uns dias ao Sudão é cobarde em não levantar alto a voz contra o seu país que não se cansa de semear a paz em países exóticos regando-os à bomba, ou vendendo-lhes armamento a jorros e patrocinando eternos conflitos, sem nunca mostrar arrependimento, menos ainda pedindo perdão.

Porquê? Porque venderia menos máquinas de café.

Bem sei que uma coisa não invalida a outra, mas há momentos que nos apetece pegar numa bica e ronronar,

Sudão… what else?

Por Carlos Carneiro (filho)

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