Diário: Regresso a casa

 As hilariantes aventuras de Carlos Pai dentro de 4 paredes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Repito vezes sem conta: o mais difícil de uma viagem nunca é a viagem, mas conseguirmo-nos libertar  das rotinas e regras  ocidentais que nos cobrem como gordura em exaustor.

Eu comecei um processo de viver com nada há muitos anos. A minha vida cabia dentro de 6 caixas. Passado uma semana do regresso e depois de uma limpeza com a ajuda da minha irmã, passou para 4 . Tinha coisas para “um dia levar” para a feira da ladra, e outras de cozinha já amareladas para se “um dia tivesse casa própria”.  Tudo para o lixo.

Ter um ano tão intenso e feliz embalado por uma pequena 4L e um saco de desporto facilita-nos a vida e dá azia ao desperdício. Como diz Nietzsche  “Quanto mais possuis mais és possuído”

– Sinto-me um estranho dentro da própria casa.

Foi isto que o meu pai me disse quando o fui visitar passado uma semana do regresso. Ia deitando coisas para o lixo incluindo 7 listas telefónicas “que um dia podiam dar jeito” e duzentas bolas de papel amarrotado.

– A que propósito tinha estas 7 listas telefónicas em casa?

– Sinto-me em prisão domiciliária, mas sem pulseira eletrônica.

Foi isto que o meu pai me disse na segunda semana. E começou a contar com mais calma o seu hilariante regresso.

“Quando quis ligar a TV tinha 11 comandos que não sabia o que comandavam, com 300 botões. Tive que telefonar ao apoio ao cliente para me orientar. Mas o telefone não funcionava. Liguei do telemóvel e perguntaram-me pela “box”. Que raio é isso a box?! No meu tempo “box” era onde se guardavam os cavalos. Encontrei a caixinha com luzes como me disse a menina, ao lado da TV e um telefone novo também lá estava! Nem me lembrava que tinham vindo trazer uma “box” com telefone novo e mais dois comandos antes de irmos embora.

Liguei a TV e nunca mais a vi desde então pois fiquei neurótico.

Não tinha água, nem gás em casa. Só tinha eletricidade e uma conta de 1500€ da EDP. Liguei-lhes a dizer que foi um ano de consumo zero.

Depois quis vestir uma camisa lavada e não encontrei. Procurei desesperado e fui dar com 3 penduradas a secar  ao sol… há um ano. Fui à SIC com uma delas e as tuas irmãs disseram-me que estava toda amarrotada. E as outras?

Quis por o meu roupão de lã do Picadilly e estava comido pelas traças, com buracos do tamanho de uma bola de golfe. Duas calças tiveram o mesmo destino trágico.

A cama estava por fazer, e assim me deitei nela um ano depois. Para quem viveu tanto tempo numa tenda, dormi como uma pedra.

Larguei a casa para esta viagem como se fosse lá abaixo comprar cigarros. Como sabes saí de casa à pressa pois estive a tratar de coisas até ao último minuto, e agora que cheguei passo os dias a tratar de coisas. Já tenho água e gás, mas sinto-me em prisão domiciliária. A Europa está velha de tanta regra, sistema e chatice. Não nos dá descanso.

– Tenho saudades de África

À quarta semana recebi o seguinte email do meu pai.

“Ontem, para tirar um pouco do alvo do meu cabelo, pus o produto do Sr. Pinto. Estava um pouco seco e acabei cheio de madeixas azul celeste. Já relavei a cabeça mais de 5 vezes e consegui que ficasse todo azul por igual, mas mais tipo cueca. Não sei o que fazer! Estou enfiado em casa há quase 48 horas, sem sequer poder ir comprar cigarrilhas, que já acabaram. Vou com um boné.”

Não há viagem mais estranha que regressar a casa.

Por Carlos Carneiro (filho)

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