O “Colosso de Alexandria” e o “Templo de Vila Fresca”

Diário: O pregador e o culturista

O pregador e o culturista: docinhos na boca e apalpões na coxa

O “Colosso de Alexandria” e o “Templo de Vila Fresca”

O “Colosso de Alexandria” e o “Templo de Vila Fresca”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há pessoas que se cruzam connosco na altura exacta para nos abrir uma nova janela na mente, ou apenas mudar-nos o rumo, deixando marcas para toda a vida. São as personagens do destino.

Depois há aquelas como os que conhecemos a semana passada: caem do céu, atiram-nos para um filme do Tarantino, e desaparecem sem deixar rasto. Se este é o nosso destino, a vida nunca nos aborrecerá.

Apanhávamos então o Ferry do Sudão para o Sul do Egipto, atravessando o maior lago artificial do mundo – o Nasser – e corremos como árabes para o convés a reservar lugar no chão, onde nos fixámos as 18 horas de viagem até sentir todos os cantos do cóccix. Ver o meu senhor pai enrolado no saco cama, num convés sujo superou tudo. Ainda não sei porque carga de água não pedimos uma camita nos camarotes, ou talvez saiba: ao nosso lado sentou-se um homem com um pé que parecia um tronco e mais tarde chegou um pregador islâmico que nos ofereceu dois caramelos passando-nos como se fossem hóstias sagradas.

Todos conhecemos a técnica do caramelo. No Correio da Manhã falam muito dela e dos predadores de bolsos cheios à caça de meninos nas redondezas das escolas.

Este caramelo também vinha armadilhado.

Assim que o aceitámos o pregador acocorou-se à nossa frente, olhos nos olhos, espremendo-nos contra a parede, e desatou num lenga-lenga árabe que interrompia com a mão e olhos apontados para o céu acompanhados da palavra “Alá”. Não percebíamos pevide e o nosso vizinho com pé de tronco veio em socorro.

Apresentou-se como Ahmed, o “Colosso de Alexandria”, culturista e mister Egipto 1982, agora um avô babado, dono de vários ginásios e o nosso amistoso tradutor.

Tentavam converter pai e filho e moldar a pedra com instrumentos para o barro pois ambos temos visões muito íntimas e próprias da religião. Já desesperados com a nossa expressão petrificada e sorriso falso de político, tentaram a última machadada:

– Ele está a dizer que tem a certeza que se repetires umas palavras terás o paraíso garantido! Conheces o paraíso? Repete só uma vez  ” la… alah… ela… allah” (Deus é grande), não custa nada.

– Paraísos só os conheço na terra é aqui a minha luta, e vejo melhor Deus numa árvore que numa igreja ou mesquita. Na Europa há muitas pessoas que gostam de sentir a religião com os próprios impulsos. E orar numa língua que me é estranha nunca me vai sair do coração, irei orar como os papagaios!

– Não faz mal! Repete que é fácil: la… alah… ela… allah …

Depois de muita teimosia minha o pregador pôs a mão ao bolso, sorriu complacente e levou-me um docinho à boca. A técnica do caramelo funcionou. Despachei o assunto e repeti as palavras mágicas.

O Ahmed respirou de alívio, esmigalhou-me a cabeça com as suas palmas de pedra e deu me um enorme beijo na bochecha. Com a alegria ainda me apalpou a coxa e disse: Tens boas curvas para culturismo!

Ora aqui está uma boa saída profissional.

Nessa noite vimos Abu Simbel do barco e dormimos debaixo das estrelas no chão metálico do convés, lado a lado com o “Colosso de Alexandria”.

Na manhã seguinte chegamos ao Egipto e dizem-nos – “Gasolina? É um problema há um mês! Há pouquíssimas bombas de gasolina abertas, e as que há têm 1 km de fila, 9 horas de espera, e o exército controlar. “.

Chegámos ao Magrebe.

Por Carlos Carneiro (filho)

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