Campismo com as milícias

Diário: Líbia I

Líbia – entrada até Bengazi

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O que mais temíamos na Líbia era logo a entrada pela fronteira do Egipto. Nas últimas semanas as milícias líbias e as tribais locais da zona haviam decidido fechar a fronteira por haver um descontrolado tráfico de armas. Quem não gostou foram os comerciantes e camionistas que precisavam de atravessar a fronteira, houve manifestações e mortos em confrontos com a polícia. Já sabíamos da história e o Will, arqueólogo americano que conhecêramos no Cairo, e há muitos anos anda pela Líbia, ia-nos alertando para isso.

Esperávamos uma enorme confusão, filas imensas com camionistas e polícia, mas vimos o contrário: tudo quase vazio e calmo, como as aldeias do deserto. No lado Líbio as faraónicas instalações fronteiriças estavam encerradas. Dois miúdos e dois graúdos controlavam sozinhos todo o processo: os vistos carimbaram-nos num casinhoto vazio – só com um carimbo e quase sem olhar, e o Carnet da Pasage a mesma coisa. Sem registos, computadores, controlo, absolutamente nada. Daí o descontrolo das armas. Esta fronteira é a alegria do traficante. Enchemos o depósito com 2.5€, a gasolina custa 0.09€/ litro!

Fizemos quilómetros até parar numa aldeia no caminho para pedir para colocar as tendas, e damos de caras com a inimaginável hospitalidade líbia, amplificada pelo momento em que vivem e pela alegria em ver turistas normais a chegar. Há estrangeiros na Líbia a trabalhar, a viver, jornalistas, empresários, diplomatas. Não somos Rambos por atravessar o país. Mas somos especiais numa coisa: estamos nos primeiros overlanders normais a atravessar esta nova Líbia acabada de se libertar de um regime que recebia os turistas com “guia oficial”, controlava os seus passos, e proibiu desde 1986 o ensino do inglês e francês em todo o país, “nem se podia falar nas escolas!” contam-nos. Representamos de certa forma uma das suas conquistas a anseios: uma Líbia que se quer abrir ao mundo, contactar com outras culturas e recebe-los abertamente em casa sem controlo de ninguém. E um pai e um filho numa velhinha Renault4L representam isso na perfeição.

Apitam, fazem “V” de vitória, dão-nos a pulseira, abraços, a coisas inimagináveis. Voltemos à aldeia onde queiramos para montar tendas: num posto de gasolina e pedimos para trocar 10 dólares para comer. O gasolineiro deu-nos 20 dinares para a mão (cerca de 12€) e disse – vão comer ali ao restaurante! E recusou veementemente os 10 dólares. Perguntou ainda posso-vos encher o depósito? Já está cheio!   Jantámos e não nos deixaram pagar. Acabámos a dormir em casa do Salem, e falar durante hora em árabe e gestos.

– Eu quero ir conhecer a Europa. Mas tenho que aprender a falar outra língua! O Kadafi não nos deixou aprender. É um louco. Eu tenho 33 anos, e quando nasci ele já cá estava há 9!

Sentimos no Salem toda um país que bebe liberdade jorros. São histórias e emoções que não cabem num post.

Seguimos para Bengazi. Temos um furo. Vamos arranjar o pneu e dizem-nos: esse pneu está uma vergonha! Oferecem-nos o primeiro pneu novo de toda a viagem. Compramos ao lado o almoço numa mercearia. O senhor vê a Catrela, eu explico-lhe que dei com o meu pai a toda a volta a África, ele cumprimenta-me, dá-me os parabéns e oferece dois chocolates. Ao longo do caminho há imensas barragens das milícias, olham para a Catrela, para nós, riem-se tiram fotos e fazem “v” com os dedos.

Chegamos a Bengazi, a cidade onde toda esta revolução começou e no dia seguinte acampávamos ao lado de um posto das milícias em Sirte, onde tudo acabou. Fica para o próximo post, que vamos arrancar…do último país: Argélia!

 Por Carlos Carneiro (filho)

 

 

 

 

 

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