Hamer na hora de almoço

Diário: Etiópia

Há dias assim: aventuras exóticas no Vale do Omo.

Hamer na hora de almoço

Hamer na hora de almoço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrámos na Etiópia estafados depois da estrada terrível do norte do Quénia, e separá-mo-nos do Dias que decidiu antecipar o regresso a casa. Apanhou um autocarro para Adis Ababa e neste momento já está em Lisboa a desfrutar Portugal.

E diz a teoria que a natureza não permite vazios, e foi assim que conhecemos dois dias depois os entusiastas Sam (americano) e Rana (israelita) numa quinta de permacultura onde os hóspedes quando vão à casa de banho estrumam e a água do duche é aquecida a composto. Com eles seguimos na Catrela para o vale do Omo em busca das suas fantásticas, primitivas e coloridas tribos, em especial um mercado Hamer, que o Carlos Pai desde o início da viagem ambicionava.

E começa uma das aventuras mais eléctrica desta viagem.

A Catrela rebentou um pneu, aqueceu em cada subida, e decidimos que era impossível fazer os últimos 75km de estrada má. Como não havia autocarros e queríamos tanto lá ir, que nos atirámos à boleia.

A primeira demorou uma hora a chegar, mas foi “porta a porta” e tão espectacular quanto rara: dois casais de oligarcas russos numa viagem organizada, muito sorridentes e em dois Land Cruisers silenciosíssimos e com ar condicionado, decidiram acudir-nos. No meu carro ambos viam um filme americano num IPad, enquanto lá fora passavam os espectaculares Hamers nas suas tarefas ou a ir para o mercado. Por mais que tentasse arregalar o olho, com tanto conforto e silêncio também perdi o espectáculo e adormeci redondo. O conforto amolece-nos.

O mercado é um regresso ao passado: cheira à pele de cabra que usam para se cobrir, sentimo-nos longe de tudo e a fotogenia abunda. Mas tem um defeito criado por nós os brancos babados com tribos exóticas: cada foto custa 3 Birr (0.15cent) e mais do que perder peso na carteira, perdemos a espontaneidade e curiosidade nestes contactos culturais: tornámo-nos um negócio fácil.

O regresso à Catrela foi sem ar condicionado. Depois de 2 hora à torreira do sol, e quase a passar a noite na localidade (Turmi) vemos um camião cheio de gente a saltar lá para dentro. Desatamos numa correria e vejo o meu pai pela primeira vez na viagem (ou na vida?) também numa louca correria e a controlar o fôlego! O Sam e a Rana gritam para irmos que o camião vai na nossa direcção. Assim que lá chego digo:

– Precisamos de um lugar à frente para o meu pai! (aqui os cabelos brancos nunca falham)

– Está tudo cheio, não dá! – respondem na confusão.

A subida para o camião é altíssima e com pequenos bordos em metal liso para pôr os pés. Olho preocupado para o meu pai e para as suas sandálias gastas, e lembro-me o pé que partiu mesmo antes da viagem. Ele encolhe os ombros e salta que nem Bruce Lee lá para dentro.

Começo a achar que ando com sentimentos paternalistas com o próprio pai, algo pateta para ter aos 36 anos. Mas foi com vento na cara e orgulho de filho que avançámos mais 25km. Procurámos boleias sem fim para completar os últimos 50km até que caiu a noite e começámos a investigar sítio para pernoitar e estava tudo cheio!

Já nos imaginávamos a dormir nos bancos corridos do bar onde estávamos quando ouvimos o Sam:

-Let’s go! Let’s go!

Era noite cerrada e numa minúscula localidade no perdido Vale do Omo ele viu um camião das obras a acender os faróis e tentou a sorte. E que sorte! Ia mesmo para o nosso destino, cabíamos os quatro e deixou-nos na abençoada Catrela.

Há dias assim…

Por Carlos Carneiro (filho)

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