A vista do nossa hostel no Cairo

Diário: Cairo

Cairo – 16 dias de degredo até conseguir o incrível visto da Líbia

A vista do nossa hostel no Cairo

A vista do nossa hostel no Cairo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seguimos para o Cairo onde nos instalámos ao lado da Praça Tahir com o objectivo de fazer o visto da Líbia, talvez o maior obstáculo para conseguirmos dar a volta completa ao continente. Tento sempre não aprofundar muito estes assuntos burocráticos pois são coisas que se vivem intensamente mas contadas parecem cadernos de encargos de empreiteiros. Vou resumir:

Em 16 dias fomos dez vezes à embaixada Líbia com as centenas de egípcios que querem voltar para os seus empregos e pertences que tiveram que abandonar durante a guerra civil. Acumulam-se filas nervosas e a gritaria é constante.

E assim fomos recebidos as 10 vezes: 1ª – “Não damos visto, talvez com uma carta da vossa embaixada a explicar o projecto…”, 2ª  (com a carta nas mãos)“Afinal não damos mesmo visto, peço desculpa”, 3ª (com a desculpa que íamos pedir um número de contacto deles) “Não me lembro do vosso caso…hum…esperem um pouco. (foi a algum sítio). Afinal podemos dar um visto de trânsito!”. 4ª, 5ª e 6ª “O sistema está em baixo, peço imensa desculpa! Voltem amanhã”. 7ª e 8ª “O Cônsul hoje não tem tempo, peço imensa desculpa!”.

Eu e o meu pai a esta altura já pouco saíamos do quarto e sentíamos o Q.I. a desabar e o dia-a-dia num descontrolado degredo: passávamos o dia agarrados à internet, a comer pizzas, falafel, emborcar latas de Stella fumar cigarro atrás de cigarro, aprofundar olheiras e a coçar o queixo. Sim estávamos no Cairo, imenso Cairo, mas não tínhamos forças nem no fundo do poço para mexer uma palha. O plano B era meter a Catrela num cargueiro de Alexandria para Barcelona e naquele momento já estaríamos na velha e conhecida Europa a cheirar perfumes caros e a um passo de casa. Mas preferimos fazer o que melhor sabemos: esperar eternamente por vistos.

Conhecemos um único estrangeiro naquela luta: o Will, um americano arqueólogo a viver no médio oriente há dez anos, que mesmo com uma carta directa do Ministro das Antiguidades da Líbia estava há 3 semana nesta espera. Conhecedor profundo da zona, e muito culto, mostrou-nos um Cairo cosmopolita e trouxe luz e alegria ao final desta longa estadia.

Fomos pela nona vez à embaixada já com poucas esperanças. O plano era sermos os primeiros da fila e apanhar o senhor da portinhola ainda fresco antes de levar e dar com os gritos. O meu pai com os seus cabelos brancos dava a cara em mais uma desesperada tentativa. Madrugámos para a maldita portinhola e conseguimos ser os segundos. Uns minutos antes do horário de abertura junta-se a multidão à volta e a passar à frente na fila que é uma especialidade egípcia. O meu pai ia avisando – “Eu sou o segundo!”. Um homem afoito ri-se a assim que abrem a portinhola ganha posição afastando-o com o cotovelo no pescoço! Eu tenho os nervos aos pulos e aquele cotovelo simboliza todas as filas que enfrentámos este último ano – agarro-o pelo ombro dizendo “Não respeitas a fila, respeita o meu pai!”. O Will diz “Não te preocupes que estamos numa boa posição”. O meu pai espremido pela multidão mantém uma expressão de pedra. Consegue ser recebido em terceiro lugar (depois do afoito) e diz-lhe o senhor da portinhola “Dêem-me os passaportes e voltem às 15:00”. Há muito que tenho um abraço guardado para o meu pai quando acabarmos esta jornada mas foi mais forte que nós: abraçámo-nos com regozijo pela primeira vez em 11 meses.

Destino: Tripoli

Por Carlos Carneiro (filho)

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