Os remendos da Catrela

Diário: A caminho do Sudão

Um pé no Sudão e outro na poça

Os remendos da Catrela

Os remendos da Catrela

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há alturas em que as viagens andam à popa. O vento bate por trás, abrimos a vela e deixamo-nos ir semicerrando os olhos com o sol morno bater-nos na cara.Assim saímos de Adis Ababa com a Catrela a flutuar na estrada e nós dentro dela depois de lhe fazerem uma grande e eficaz revisão. Serpenteámos pelas montanhas que descem abruptamente 1.000 metros até à garganta do Nilo azul, e voltámos a subir, sem problemas de travões ou aquecimento. O teste estava superado. Destino: Lisboa!

Foram três dias agradáveis com uma noite de campismo numa casa familiar e outra em Gondar, a terra dos castelos onde visitámos o palácio de Ras Tafari, que tem os sofás reais a monte numa cozinha e estou seguro que, por um par de “birres”, poderíamos pular na cama imperial e tirar fotografias.

A última noite já dormimos perto da fronteira numa esplendorosa noite de lua cheia. Fizemos uma fogueira e sentimos o brilho do fogo e do luar espalhar-se pela savana. Ouvimos Amália Rodrigues e Carminho toda a noite, e acabámos com um pacote de vinho pois no Sudão álcool é crime.Foi uma das noites mais simbólicas da viagem. Com vinho, fado e uma noite brutal, viajámos até às tascas de infância do Carlos Pai, revisitámos esta volta a África e começámos a imaginar o regresso a Portugal. O dia seguinte marcava o último país da África Negra e a contagem decrescente para os últimos cinco países desta longa jornada.

Chegávamos finalmente às portas do Magrebe e à última etapa, com a Catrela melhor que nunca, o espírito em alta, e o vento a bater-nos por trás.

E quando as coisas começam a fazer sentido, semicerramos os olhos, sentimos o sol morno a bater na cara, o barco bate numa pedra e atira-nos borda fora para a água gelada.Já na fronteira, o Carlos Pai vem com o sobrolho franzido da emigração etíope e diz – Se calhar vamos ter um problema complicado. Deixámos o visto do Sudão caducar…

Entrámos os 10 metros no Sudão. O chefe da emigração diz altivo: “Este vistos não servem. Têm que ir a Adis Ababa!”. Bateu com os dois passaportes na secretária com tal veemência, que não balbuciamos nem uma palavra dos longos discursos que tínhamos preparados. Viemos embora.

– Agora é não nos deixarmos ir abaixo – comentei.

– Temos que olhar em frente – responde-me o meu pai.

Olhar em frente era olhar 1200 quilómetros para trás. Mais outros tantos para voltar. Era perder uns 15 dias preciosos de calma e viagem. Mas isto não era o mais grave.

O meu passaporte, já só com duas folhas vazias, acabava de ficar cheio e inútil com este erro pois ganhámos dois vistos extras e desnecessários – Sudão e Etiópia que entretanto também caducara. Só no Egipto tenho embaixada para me podem fazer um passaporte temporário.

E já vos escrevo de volta a Adis Ababa, com uma esperança: que usem uma folha com um maldito e mínimo carimbo das Honduras num canto e o tapem. Algo já recusado pela imigração etíope.

Estou dependente de uma alma caridosa. Senão terei que voar directo para a embaixada do Cairo e cruzar os braços. Aí esperarei pelo passaporte temporário e pela longa jornada que o meu pai terá que fazer sozinho: 3000 km do norte da Etiópia, Sudão até ao Egipto, inclusive o confuso Ferry de Wadi Wafa onde guiar, vigiar o carro e tratar de papeladas sozinho, é tarefa pesada.

E é esta a delicada situação actual em que vos escrevo.

Mais notícias para breve.

Por Carlos Carneiro (filho)

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