Crónica: O viajante machista

Nunca uma viagem se queixou com um frasco de cornichons vazio no frigorífico ou do motor da Zundapp desmontado no armário há 10 anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As viagens são como as mulheres, mas percebem-nos muito melhor.

A minha geração pode desbravar ambos com calma e em abundância, como nunca antes na história da humanidade. A pátria não nos garante nem a guerra, nem a reforma; a igreja não nos convence à procriação eterna com o primeiro camafeu que nos põem à frente.

Somos livres e a vida é um buffet barato. O viajante moderno passeia-se nela com o seu tabuleiro de plástico e prova um pouco de tudo.

Começa por estremecer com Verões no Algarve no clímax de acordar bêbado ao lado de uma inglesa rechonchuda esborratada de rímel. Evolui para os inter-rails e ruma orgulhoso para as capitais aborrecidas da Europa dos turistas, deixando-se arrebatar pelas suas catedrais como capas da Playboy. Até que começa a sonhar com odisseias de vários meses, destinos improváveis e doses extra de coragem. Quer sair da zona de conforto, das festinhas no sofá e do mau sexo no banco de trás do carro.

A disneylandia estrangula-o como as namoradas impecáveis, previsíveis e com sorrisos estáticos de apresentadora de programa da manhã.

E estas primeiras grandes viagens são como as primeiras relações duradouras. Começam-nos a envolver e a descer para o estômago. Já não nos deixamos dominar por decotes com centímetros de rendinha e pele, e damos o passo de gigante rumo à “mulher interessante”.

E o que é isso de uma mulher interessante? Nenhum homem faz a menor ideia pois é mais uma invenção das mulheres que normalmente escolhem as amigas mais feias para as mais interessantes.

O homem está um passo à frente e sabe que as viagens que agora sonha são como as mulheres que deseja: não faz ideia o que vai acontecer. É um halo invisível que o atrai e o mistério que o conquista.

É então que percebemos que nestes universos paralelos há um enorme rasgão, algo que nenhuma mulher no seu perfeito juízo fará, e que todas as viagens o cumprem com arte: manter o silêncio até ao final, aconteça o que acontecer. Este silêncio deixa o nosso instinto apurar-se e o tal sexto sentido que as mulheres cercaram de muros para sua propriedade, afinal também existe nos homens, percebe o viajante. Tudo tem a transparência do silêncio, e atingimos a alquimia de sentir o que está para vir.

Aprender a ouvir os nossos impulsos, talvez esta seja a grande lição que tiramos das longas viagens.

E começamos a sentir que há qualquer verdade escondida nos locais que buscamos e já não saem nas fotografias. As viagens já não se mostram pela fachada mas pelo que nos conseguem envolver, numa intimidade sua e nossa, algo inexplicável e intransmissível.

Porque em ridículas pingas, ou trágicos dilúvios, as viagens, tal como as mulheres, amarram-nos a algo que não nos pertence e libertam-nos da pior das solidões que é viver sem memórias a colorir a caixa craniana.

E por mais quilómetros que se percorra, e mulheres que se conheça, todos sonhamos um dia encontrar aquele pedaço de terra onde queremos montar estaca, esquecer tudo, viajar parado e ter os horizontes no infinito dentro de um pequeno pedaço de terra.

Aí não interessa o país, a propriedade, ou a estaca. Basta encontrar a mulher que sempre procurou. É ela a magia e não o lugar.

É ela que faz o viajante sonhar e o seu destino final.

Por Carlos Carneiro (filho)

 

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