Crónica: O que é que os etíopes fazem com as caricas?

O meu primeiro contacto cultural com a Etiópia foi no Top+ de Domingo e a música “We are the world”.

As maiores estrelas americanas juntaram-se para salvar um país exótico cheio de esfomeados e o mundo aplaudiu comprando milhares e milhares de vinis.
O Bruce Springsteen já era roufenho, o Kenny Rogers usava a mesma barba aparada e o Michael Jackson, ainda amulatado, começara a dormir numa chocadeira para alegria dos fãs.
Eu era um miúdo de 10 anos com medo de escuro e sem medo da fome que perguntava aos colegas de escola:

– Sabes o que é que os etíopes fazem com as caricas?

– O quê?

– Pratos de sopa.

Duas décadas depois, a Etiópia passou do país da música de sucesso que serve para nada – morreram à mesma um milhão de pessoas – para o país que mais curiosidade e desejo me desperta em todo o mundo. Foi crescendo na minha cabeça como as miúdas giras que em adolescente via no café e que o tempo as ia cobrindo de fantasiosas qualidades até se tornarem mulheres perfeitas e inacessíveis.

Larguemos o rímel, e passemos a este estrondoso país:

– Terra de reis, imperadores e cristãos na sua forma mais pura, tão místico que aqui acreditavam ser o reino de Preste João.

– Terra onde nasceu Ras Tafari (rei Tafari), o imperador Haile Selassie, que na Jamaica acreditaram ser o messias africano do século XX e para onde voltaram muitos caribenhos à procura das origens e da terra prometida. Tornou-se a religião que declara a “ganja” sagrada e que todos dançamos e celebramos nas músicas reggae – “Rastafarai!”.

– Porque a Etiópia tem a força e personalidade de ser o único país em África a não ter caído nas ferozes mãos dos Europeus, tirando seis anos de uma frustrada invasão italiana que recorreu a gás mostarda e foi corrida a tiro.

– E claro, a Etiópia é a terra de “Lucy” o mais antigo bípede encontrado no mundo, que deu a este país a medalha de berço da humanidade. E se a Lucy era um taco de pia peludo e feio, nos dias de hoje, o povo Etíope é considerado o mais belo de todo o continente. Viva a evolução!
Aqui está a minha entusiasmante viagem à Etiópia antes de se lá pôr os pés. Passaremos então da terra de imperadores, messias e reinos imaginários, para este país real visto através dos vidros sujos da Catrela, já nos próximos post.

Por Carlos Carneiro (filho)

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