Crónica: O estranho Reino da Abissínia…

 “Não somos africanos. Temos cabelo escorrido, feições delicadas e a nossa própria maneira de ser. Somos abissínios.”

A Etiópia é um país sem mar com tiques de ilha.
Tem calendário próprio (estão em 2004), hora só sua (seis horas depois das regras internacionais, madrugando assim ao meio dia) e para complicar ainda mais, o slogan que o ministério do turismo acompanha nos seus cartazes dos anos sessenta é “Etiópia, 13 meses de sol”!

Também tem a única lei no mundo que dá prioridade nas estradas a peões, bicicletas, carroças e animais (por esta ordem) e só depois aos desgraçados que se movem a gasolina! Um governante quis mudar a lei e despoletou motins em todo o país com algum sentido – a maioria dos etíopes não tem carro e alega que democraticamente as estradas são suas. Voltaram atrás e conseguiram aplicar a nova lei apenas numa avenida de seis faixas em Adis Ababa! Guiar na Etiópia está no último nível de dificuldade ao lado da Nigéria.

E se em Portugal temos bica é graças à Etiópia. A história é interessante e vale a pena contar: entre o século quinto e décimo, um monge reparou na excitação das cabras depois de comerem as bagas de certas plantas. Mascou algumas, sentiu o frenesim no corpo e decidiu levar a descoberta para o Mosteiro. Foi repreendido por querer trazer o “fruto do Diabo” para lugar sagrado e queimaram-lhe as bagas todas. Só que depois de queimadas sentiram o aroma das bagas tostadas e mudaram de ideias! Nascia assim o café e o nosso acordar feliz de todos os dias.

Mas para quem cá anda, percebe que o que mais orgulha os etíopes é a sua raça fina afamada por toda a África e boa produtora de “misses”. As mulheres tatuam o rosto e pescoço para se embelezar e os homens decoram os cavalos com pompons coloridos.

Porque tudo é belo e diferente no Reino da Abissínia, com os seus mosteiros de guardiões seculares, castelos antigos e histórias de encantar…
E assim se fala das novas namoradas. Comenta-se o seu passado fabuloso, de como são especiais, a alegria de acertarmos em cheio e termos o destino a afagar-nos a vida. Não se vai directo ao assunto.

Mas como este é um site de fontes transparentes, vamos tirar os óculos cor-de-rosa e falar de defeitos.

– A Etiópia até há poucos anos era dos países mais pobres do mundo.

– Os miúdos gritam desvairados aos turistas por canetas, birres (moeda local) e garrafas de água vazias. E se alguém souber quem foi o primeiro turista que decidiu atirar um molho de canetas pela janela em África, diga-me para lhe espetar umas bics na testa.

– Os hotéis etíopes não são renovados desde a invasão italiana.

– É frequente não haver água uma semana seguida em Adis Ababa, e a electricidade ir abaixo várias vezes ao dia.

– As suas orgulhosas mulheres às vezes têm um tom de voz que parece a sirene dos bombeiros, e muitas põem manteiga fresca no cabelo para ficar lisinho e bonito ao longe, e a cheirar a queijaria ao perto (experimentem apanhar uma minivan de 12 horas como nós!)
E assim nos vamos deslumbrando com este país de carácter forte, personalidade única, fotogenia em abundância, que cria messias africanos e põem manteiga fresca no cabelo.

É um país fácil? Claro que não, há pouco turismo e menos condições.

Mas os países são como as novas namoradas que tanto gostamos de falar: têm que nos dar luta para vivermos felizes para sempre.

Por Carlos Carneiro (filho)

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