Crónica: Chegada à Europa

Chegada à  Europa – um LSD por favor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem acha que África é um continente exótico é porque nunca foi à Europa depois de 11 meses de África.

Reentrar no mundo ocidental é levar chapadão de luzes artificias, tabefes de publicidade, sermões de regras, tudo muito explícito, simpático e movido a sorrisos marmóreos. Há todo um esforço global pensado e estudado para nos prender a atenção. O bem-estar e o progresso esmigalha-nos num abraço e de estímulo em estímulo, os nossos cérebros moles e embebidos da austeridade silvestre africana, começam a andar à roda.

Chegámos a Alicante numa sexta-feira com as ruas desertas. Só os donos com cães saíram para que estes não lhes façam cocó em casa.

Vamos almoçar e comentamos com o empregado de balcão:

– Esta cidade está muito mortiça não?

– Es la crisis.

É verdade, chegámos à crise. Em África a vida é tão basilar que desconhecem termos tão vagos.

Aqui na Europa, neste dia em que chegámos tudo está vazio, tudo brilha e cheira a detergente. Tudo vazio num vácuo de pessoas, germes, bactérias e de cheiros não controlados cientificamente.

Há muita ciência parada na Europa – carros que enchem os estacionamentos, máquinas de jogo com bolinhas de cores pedem moedinhas, televisões choram, anúncios giram com as suas modelos vazias de carne e as famílias perfeitas. Há muita ciência parada na rua à espera que o dono chegue.

No sábado vou a um hipermercado comprar elixir e fio dental que não encontro desde a Líbia. A luz dá-me de chapa nos olhos que secam e avermelham. Dêem-me um LSD que fico mais sóbrio.

As caras europeias são muito estranhas. Debaixo daquela luz só vejo olheiras fundas e cabelo com brilhos falsos. A ciência na Europa têm-se debruçado profundamente sobre os cabelos para os pintar às cores dar-lhes geometrias novas. Faz-nos parecer flores de plástico.

Vou para um fila, atrás de uma gorda que se ajustou numa mini-saia cinzenta. Há muito tempo que não via tanta carne. O Magrebe não deixa as suas mulheres descascarem-se.  Uma amiga chega e diz-lhe “Estas bolachas só têm 50 calorias!” Ele responde: “que bien”.” A ciência debruçou-se também sobre as bolachas para que as gordas tenham um momento de alívio na fila do supermercado.

Uma menina passa de patins, a plana naquele caos de luz como um cisne num lago. Uma das caixas tem um laçarote vermelho no cabelo.

Sentia saudades sinceras desta liberdade europeia que deixa as suas pessoas descascarem-se e cobrirem-se de cores.

Saio do supermercado como caído com estrondo em terra numa cápsula espacial. Lá fora espera-me a Catrela que acabei de lavar pela primeira vez com jactos de água quente, aspirador e toalhetes com cheiro.

Começo a aspirar África de mim e das coisas que trago, pois na Europa África traz cheiros descontrolados.

Gargarejo um pouco do elixir, entranho o sabor a desinfectante na boca e sinto finalmente a Europa e reentrar dentro de mim.

 

Por Carlos Carneiro (filho)

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixar uma resposta