A Zena e a amiga

Crónica: A Zena e a amiga

Silencioso bastante tempo vou agora mostrar o filme de encontros que tive e não tive, com mulheres africanas.

A Zena e a amigaA Zena e a amiga

Estávamos em Kafi, na Republica Islâmica da Mauritânia e já próximos do Mali. Aí parámos e dormimos num parque de campismo de razoável qualidade. Éramos os únicos.

Na manhã seguinte e antes de partirmos para terras de fronteira onde uma secção da Al-Quaeda tinha morto dois viajantes franceses, fomos a um “Cyber-Café” sem café.

Nesse “Cyber” estavam duas mulheres muito bonitas e ambas próximo dos trinta. Uma vestia uma “djellaba” que descia do pescoço até aos pés, mostrando um rosto suave e uns olhos negros enormes e estonteantes. Sob a “djellaba” imaginei um corpo elegante e uma pele macia. A outra chamava-se Zena, usava saias que mostravam pernas bem tratadas e torneadas e uma blusa que exibia seios que fixaram o meu olhar. O pescoço era longo e sobre ele assentava a face bonita de uma Nefertiti mauritana. Ambas tinham pele lisa num tom levemente cobreado.

Eram amigas. A primeira uma muçulmana convicta que interrompeu o que fazia para rezar e a Zena, com ascendência maliana, nem por isso. A primeira trabalhava no local cobrando e distribuindo os computadores e a Zena nada fazia a não ser conversar com a amiga e depois connosco. Falou de si e da sua vontade de mudar, perguntando o que éramos, fazíamos e queríamos.

Com o entardecer o”Cyber” começou a esvaziar-se e a Zena retirou-se, não sem antes obter os nossos endereços electrónicos. Acabei sozinho com a muçulmana convicta. Estávamos de frente em lados opostos da sala, trocámos alguns olhares e sorrisos enquanto trabalhávamos.

Chega então um homem que aparentava ser seu pai e que a ela se dirigiu, recebeu os “ouguias*” feitos no dia, contou-os e com ela começou a preencher o que julguei ser o livro das contas.

Terminado o meu trabalho, a ela me dirigi, perguntei quanto devia, paguei, agradeci e estendi-lhe a mão para um cumprimento afável. Mas ela recuou e disse assustada: “Non!”, “Non!”, mostrando uns olhos pretos enormes e lindos numa face bonita que uma expressão de terror comovia. Compreendi e julgando mostrar respeito pelo que era o seu marido, estendi a mão a este. Mas também recuou e numa algaraviada incompreensível mostrou a sua animosidade. Virei-me, aproximei-me da porta e disse fixando os olhos enormes e bonitos de uma mulher aterrorizada: “je m’excuse, madame”. E fechei a porta trás de mim.

Entrei na Catrela onde esperei os meus companheiros de viagem e meditei, culpando-me por não ter respeitado uma cultura diferente e por ter criado um problema a uma mulher que não o merecia. Mas ela era linda e enfeitiçou-me.

*moeda mauritana

 

Por Carlos Carneiro (pai)

1 reply
  1. Furacao ML says:

    Parabéns Carlos; pelo meio ano de viagem, pela coragem, pelos acontecimentos e especialmente pelos textos.
    Adorei e só espero que, pelo menos, não tenhas estendido a mão esquerda (aí sim, ofensa completa).
    Coragem companheiro e continua a deliciar-nos com as tuas experiência. Boa continuação de viagem; Inch’Allah

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