Crónica: A menina dos lencinhos de papel

 “nakab”- veste feminina geralmente negra que cobre todo o corpo e deixa um rasgo para os olhos.

“khemar”- veste feminina de cor geralmente viva que cobre todo o corpo e deixa a face a descoberto.

 

Foi em Aswan na manhã de Sábado 31 de Março, sentado numa esplanada de um jardim enorme que se estende do Nilo à estação dos comboios. A esplanada estava repleta de homens que bebiam café turco, fumavam Xixa e discutiam berrando coisas que deviam ser importantes. Eram dez e trinta e eu tomava um pequeno-almoço de café também turco e “bolo inglês”.

Como gosto, olhava as pessoas na sua rotina, as raparigas e mulheres muçulmanas de “khemar” ou “nakab” e as diferenças Coptas nas suas vestes e comportamentos. Admirei como raparigas novas talvez muito bonitas e elegantes, cobertas de preto e só com um pequeno rasgo que lhes permitia mostrar olhos grandes de pestanas longas e pintados de negro espesso, que fugidiamente me espreitavam pela frincha do véu. Se sorriam como eu não sei, mas acho que sim. Admirei a beleza e elegância no andar das raparigas Coptas com as suas calças justas e blusas coloridas, cabelos negros compridos a cobrirem os ombros, sorrisos e olhares. Cruzavam-se como se diferença entre elas não houvesse.

Foi então que uma menina com talvez 5 ou 6 anos muito bonita e de expressão suave e meiga, bem vestida de “khemar” colorida com azuis e bordados de pedrinhas brilhantes se aproximou de mim sem me olhar, como a ensinaram. Com um pequeno saco da escola em plástico verde e coberto de bonecos onde trazia alguns cadernos e pacotinhos de lenços de papel, estendeu-me a sua minúscula mão com um pacotinho a que eu disse não com a cabeça. Mas o seu olhar vagueava à volta de mim sem me olhar e a sua mão continuava sobre a minha mesa. Condoí-me, tirei do bolso uma moeda de uma libra egípcia (0,125 €) que lhe dei como esmola e logo ela pôs o pacotinho na minha mesa e afastou-se.

Fiquei a pensar naquela criança suave e bonita que foi incapaz de me olhar e pedir, e nas nossas crianças que tudo têm e exigem ter. Os meus olhos humedeceram e usei um dos seus lencinhos. Apeteceu-me ser seu avô. Procurei-a mas nunca mais a vi.

 

Por Carlos (pai)

 

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